Eu sou o 2o. à direita da cruz, polegares enrijecidos pelo frio. Foto de Manoel Fraga.
No domingo retrasado, 16/11, subi ao Pico Naiguatá. Um excelente passeio, e certamente a caminhada mais puxada que já fiz.
A “expedição” era organizada pelo CEC, Centro Excursionista Caracas (cecaracas@gmail.com), uma associação sem fins lucrativos fundada em 1929. É bastante organizada e promove passeios similares praticamente todo fim-de-semana.
Fotos:
Eu sou o 2o. à direita da cruz. Polegares enrijecidos pelo frio.
Infelizmente nenhuma das minhas foi tirada do pico propriamente dito; dizem que a vista é espetacular (para um lado Caracas, para o outro o mar), mas não tivemos tanta sorte: mais de uma hora antes de chegarmos ao pico já estava chovendo forte.
O Manoel Fraga, do CEC, também fez mais uma porção de ótimas fotos (incluindo a que está no início desta mensagem), além do video a seguir. A “cascata” que se vê no video era o que se tornou a nossa trilha, na descida, após a chuva.
O passeio também foi oportunidade de conhecer gente interessante, entre eles o Camilo: coincidentemente, um engenheiro da computação ligado em software livre e bastante interessado em questões de propriedade intelectual.
O Ministério da Cultura venezuelano tem uma distribuidora de cinema: a Amazonia Filmes. Faz um belo esforço no sentido de equilibrar a oferta de filmes em cartaz com mais produções latino-americanas, européias e asiáticas; boa parte dos filmes da mostra de cinema latino americano (que rolou durante o mês passado) vinham por ela.
Idéia interessante; tenho a impressão de que já foi cogitada no Brasil, mas desconheço por que não foi adiante. Suponho que ajudaria a eliminar um enorme gargalo no circuito cinematográfico.
O projeto pinta ser ambicioso. “Se nos próximos anos vence a maioria dos desafios que tem adiante, irá converter-se na ponta de lança para uma distribuidora de filmes hispânicos”, diz o site. E é acompanhado por outros grandes investimentos estatais no cinema. Depois de uma década de 1990 muito fraca em produção cinematográfica (como no Brasil — dá-lhe Consenso de Washington!), a Venezuela tem hoje pelo menos 14 filmes em fase de pós-produção (realizados pela Villa del Cine, produtora ligada ao Ministério da Cultura).
Grafite feito perto no Organopônico (horta pública) que fica perto do Parque Central, nos dias do fechamento do McDonald's
O Seniat (Serviço Nacional Integrado de Administração Aduaneira e Tributária) fechou por 48 horas todas as 115 lojas do McDonald’s na Venezuela.
Veja fotos de uma loja que fica no térreo do Parque Central, o conjunto de prédios onde estamos vivendo (clique para ampliar).
A medida incluiu também multas de Bsf. 1150 (uns R$ 1200) para cada empresa contribuinte (multa irrisória, pois eram 16 empresas ao todo), e foi aplicada por “inconsistências nos livros de compra e venda em matéria de Imposto sobre Valor Agregado (IVA)”. O meu tradutor-Homer entende que sonegaram algo similar ao ICMS brasileiro.
Parece que o alvo não foi só o McDonald’s. Embora isso não tenha sido noticiado aqui, a imprensa brasileira informou que as redes Wendy’s e TGI Friday’s também tiveram suas lojas fechadas no mesmo período.
É importante notar, porém, que não se trata de privilégio das lojas gringas; as 62 lojas da rede Arturo’s (um “Bob’s” daqui) também sofreu aplicação de medida similar. Além disso, de vez em quando é possível ver cartazes parecidos com o da foto acima em lojas variadas do centro (em casos em que as lojas não foram fechadas, mas o Seniat quer informar à população que o estabelecimento tem uma dívida de imposto).
Um colega nosso comentou que, no Brasil, isso seria ilegal, por tratar-se de um constrangimento público com a finalidade de cobrar uma dívida. Pessoalmente, acho que é justo. Trata-se de uma dívida pública; de certa forma, todos os venezuelanos são credores dessas empresas. Além disso, parece-me justo também que o público tenha a possibilidade de saber quais estabelecimentos sonegam ou não, para ter isso em conta como mais uma variável na hora de escolher onde consumir.
Atualmente há muitas cooperativas na Venezuela. Alguns dos estrangeiros que estamos estagiando no SAPI trabalham em diretamente com elas, fazendo gestão de marcas coletivas: um grupo de cooperativas se organiza e obtém uma marca para seus produtos.
Esses dias comi num restaurante-cooperativa, no centro da cidade — o do cartaz à direita. Foi o almoço mais barato até agora (Bsf. 12, uns R$6,50). O prato principal era bastante simples, mas, para minha surpresa, a sopa era simplesmente fora do comum. Um caldo de peixe, com mariscos (achei uma patinha de siri), leve e saborosíssimo. E o ambiente também era bastante bom. Bacana!
Os 8 do meio são os que realmente vivem no apartamento — todos os estrangeiros que estão fazendo o curso do SAPI. (Agora estamos também acompanhados pela Bianca, companheira do Eduardo.)
Os 4 de baixo são figurinhas comuns no apê: Jeanpier e Rene (vulgo Jorge) trabalham no SAPI conosco, e Diana e Júlia são duas brasileiras que vivem por aqui. (A Diana fez o curso no ano passado, e a Júlia é amiga da Mari Almeida, a nossa ponte para chegar ao curso.)
O “lobo-mau” é um cara que trabalha à noite, no prédio em frente. As garotas se tocaram, lá pela segunda semana, que ele passava o tempo todo olhando para o nosso prédio, principalmente quando havia alguém se trocando…
Como já comentei por aqui, o SAPI divulgou que vai voltar aplicar integralmente a lei de propriedade industrial de 1956, a única vigente desde que a Venezuela saiu da CAN. Essa decisão provocou um auê na imprensa nacional, em particular em jornais de oposição, como o El Universal, que anunciaram aos quatro ventos que o país estava voltando para uma idade das trevas.
Veja a seguir um apanhado de matérias que saíram sobre o assunto, com alguns comentários sobre as patacoadas ditas pelos meios de comunicação.
La boda (1982) Pequena história da esquerda venezuelana (durante uma festa de casamento). Ótimo roteiro.
La hora Texaco (1985) Exploração em um campo de petróleo (e um pouco mais sobre a esquerda venezuelana).
Pequeña revancha (1985) História de crianças (saca cinema iraniano?), com o pano de fundo da ditadura militar que durou até 1958. Ótimo.
Amazonas, el negocio de este mundo (1986) Documentário: missionários evangélicos dos EUA tentando converter indígenas à força, e procurando urânio venezuelano nas horas vagas.
Chilenos:
En la cama (2005) Um casal de desconhecidos se conhece no motel. Bom, bastante inovador no formato.
Semana passada fui assistir a um concerto de cuatro, um dos instrumentos mais típicos aqui da Venezuela. O artista da vez era Rafael “El Pollo” Brito (veja um perfil e uma entrevista), acompanhado de Rodner Padilla (baixo), e de um bandolinista incrível, cujo nome infelizmente não aparecia no material do evento. Veja a seguir alguns vídeos:
De Repente (Aldemaro Romero)
Natalia (Luis Laguna)
Pétalos de Rosa (Pedro Oropeza Volcán)
El Cruzao (Ricardo Sandoval)
O concerto encerrava uma exposição sobre a evolução histórica do cuatro venezuelano. O cuatro é um instrumento de origem espanhola; achei que lembra bastante o nosso cavaquinho, mas fiquei com a impressão de que a técnica guardou mais das coisas espanholas.
O instrumento abaixo estava exposto como um antecente do cuatro; fiquei impressionado com o acabamento no centro, feito em madeira. Não parece um alaúde? (Clique para ampliar.)
Recentemente a Venezuela trocou as moedas e notas (para — déjà vu — cortar 3 zeros), e introduziram esta moeda de… 12 e 1/2 centavos. Segundo um amigo daqui, ela teria sido criada por motivos históricos. Ainda não achei nada que custasse 1/2 centavo. Acho que vou levá-la pra casa.
Neste fim-de-semana assisti um espetáculo bem interessante, de um grupo musical (Odila, a Orquestra de Instrumentos latino americanos) e uma companhia de dança (Coreoarte). Ambos os grupos fazem uma fusão de elementos da tradição venezuelana e referências mais contemporâneas.
Cartaz do evento
O espetáculo foi em comemoração aos 25 anos da Odila. Os caras são bons: tocam músicas do folclore latino americano usando os instrumentos daqui.
Esse vídeo é de um trecho de uma canção chamada Afrojoropo, que em uma parte tem um ritmo venezuelano bem típico (o joropo), e em outra (a que aparece no vídeo) o estilo de música de tambores com bastante influência africana que se faz por aqui. Cada um desses três tambores que aparecem no vídeo tem um tom (prima, mais grave; cruzao, médio; e boca, mais agudo) e um fraseado rítmico correspondente; a mistura dos três ritmos tocados ao mesmo tempo dá esse efeito meio hipnótico da música. (Foi uma pena eu não ter gravado, mas logo antes desse trecho rolou a parte mais linda — e surpreendente — do show: um solo de… maracas!)
Em seguida ao show, a Coreoarte (cujos dançarinos improvisaram em algumas das músicas do show anterior) estreou Yo soy Juaquín, uma montagem composta por Carlos Orta, já falecido, que foi diretor e fundador da companhia. A peça era inspirada numa obra de Pablo Neruda chamada Fulgor y muerte de Joaquín Murieta. Embora eu não seja muito fã do estilão que a companhia segue (pode ser questão da coreografia, mas pareceu mais moderno do que contemporâneo, principalmente no caso dos homens — que, no entanto, eram ótimos dançarinos — e nas coreografias em grupo, que eram meio quadradas), eles agregam uns elementos da dança tradicional venezuelana que dão um resultado bastante interessante. Seguem alguns vídeos; o último é do final do espetáculo, quando a Odila voltou ao palco.